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Padre
Artur Alonso
(Reproduzimos a seguir o verbete "Artur Alonso, SJ",
publicado no Dicionário de Educadores Brasileiros,
pela Editora UFRJ; por Andrea Cecilia Ramal).
Nasceu em 25 de junho de 1901, em Valladolid, Espanha.
Iniciou seus estudos na Escola Apostólica de Bordéus,
dirigida pelos padres jesuítas franceses que trabalhavam
na formação de futuros missionários. Em 1918
formou-se no bacharelado de francês clássico. Sentindo-se
atraído pelas idéias e pelos valores que lá
conheceu, decidiu ser padre jesuíta, e vir exercer seu ministério
no Brasil, desembarcando em São Paulo naquele mesmo ano.
Com os jesuítas recebeu sólida formação.
Entre 1920 e 1923, ainda em São Paulo, realizou os estudos
clássicos (Humanidades e Retórica). Mudou-se para
Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro, para ingressar na Faculdade
dos Jesuítas. Lá veio a formar-se em Filosofia, quatro
anos mais tarde, especializando-se no pensamento escolástico-tomista.
A etapa seguinte foi cumprida fora do país:
primeiro na Holanda, na Faculdade Eclesiástica dos Jesuítas
Alemães, onde obteve a sua segunda graduação,
agora em Teologia; depois, em Roma, cursou entre 1930 e 1932 o Doutorado
em Ciências Eclesiásticas.
Ordenou-se aos 26 de julho de 1931, ainda em Roma. Fez um curso
de aperfeiçoamento sobre a espiritualidade de Inácio
de Loyola na França até o ano de 1933, quando finalmente
retornou ao Brasil, onde viria a ocupar importante espaço
no âmbito da educação católica. No auge
de sua atuação, recebeu o título de Cidadão
Carioca, outorgado pela Assembléia Legislativa do Estado
da Guanabara.
Faleceu no Rio de Janeiro, aos 13 de janeiro de 1990,
depois de complicações de saúde que causaram
grandes sofrimentos. Naquele momento, era quase nonagenário
e contava 59 anos de ministério sacerdotal e 72 como religioso
jesuíta.
Pe. Alonso foi, antes de tudo, um educador. Começou a se
interessar pela educação antes mesmo de se formar.
Enquanto cursava a Filosofia em Nova Friburgo, já trabalhava
como professor no Colégio Santo Inácio do Rio de Janeiro.
Em seguida, antes de sair do país, exerceu o magistério
por três anos no Colégio São Luís, em
São Paulo, lecionando Francês, Latim e Física
Experimental.
Ao voltar ao Brasil, já com o doutorado terminado,
ocupou o cargo de Prefeito Geral do Colégio São Luís,
entre 1934 e 1938. Em 1939 foi enviado para o Rio de Janeiro, para
atuar como Superior da Casa dos Escritores da Companhia de Jesus.
A 11 de fevereiro de 1941, assumiu a Reitoria do Colégio
Santo Inácio do Rio de Janeiro, cargo que ocuparia por seis
anos.
Seu primeiro ato como Reitor foi aprovar a adaptação
de uma casa recém comprada, localizada ao lado do Colégio,
para o funcionamento das Faculdades Católicas (a futura PUC),
que desde o ano anterior aproveitavam algumas salas de aula do próprio
Santo Inácio.
A época de Reitoria do Pe. Alonso coincide
com um momento do país em que os grandes colégios
católicos são, eventualmente, figuras de destaque
nas festividades militares. Por exemplo, na semana da pátria
do mesmo ano de 1941, realiza-se o desfile do batalhão do
colégio, constituído por cerca de 700 alunos, diante
do novo Ministério da Guerra. Essa participação
reforça uma idéia da época e uma convicção
do Pe. Alonso de que os católicos deviam ser o "exército
da Igreja", combatendo os inimigos dos ideais cristãos.
Outra marca deste momento é a amizade e mesmo a presença
de figuras de evidência na política nacional nos eventos
do Colégio Santo Inácio. O Ministro Gustavo Capanema,
por exemplo, é amigo do Pe. Alonso; na primeira comunhão
do filho, preside à solene festa de Inácio de Loyola.
O próprio presidente Getúlio Vargas compareceu mais
de uma vez a missas na Igreja do Colégio, como por exemplo
na ação de graças pelo seu restabelecimento
após o acidente de automóvel na estrada Rio-São
Paulo, em 1942, ou na missa pela alma de Getúlio Vargas Filho,
em 1943.
Ao longo do mesmo período em que foi Reitor
do Colégio Santo Inácio, Pe. Alonso integrou também
a Diretoria Nacional do Sindicato de Diretores dos Estabelecimentos
Particulares de Ensino do Rio de Janeiro, e foi membro da Comissão
Executiva dos seus Congressos Nacionais de Educação.
Em 24 de dezembro de 1946, Pe. Artur Alonso foi nomeado
Provincial dos Jesuítas do Brasil Central, ficando responsável
pelas principais decisões e políticas para as obras
educacionais e sociais dos jesuítas dessa região.
Nessa data, começou um trabalho incansável de apoio
organizado às escolas e de defesa da educação
católica.
O mesmo ano de 1945 foi significativo na história
do Pe. Alonso. Foi também nele que participou, em Bogotá,
do Congresso Interamericano de Educação Católica;
e nele que consolidou a sua mais importante realização:
a fundação da Associação de Escolas
Católicas (AEC), na qual desempenhou, por vinte anos, o cargo
de presidente, desde março de 1944, antes mesmo da sua instalação
oficial (em 24 de novembro de 1945) até o mês de julho
de 1965.
Pe. Alonso organizou vários Congressos Interamericanos
de Educação Católica, alguns tendo sido por
ele presididos, como ocorreu em 1951, no Rio de Janeiro.
Entre 1946 e 1952 dedicou-se principalmente à presidência
da AEC e à sua atuação como Provincial jesuíta,
neste momento já com a nova incumbência de cuidar da
vice-Província Goiano-Mineira. Logo depois, em 1954, iniciou
sua ação no ensino superior, começando a trabalhar
como catedrático de Filosofia na Pontifícia Universidade
Católica do Rio de Janeiro.
Já familiarizado com o espaço universitário,
assumiu a Reitoria da PUC em 1956. Até 1962, momento em que
deixou o cargo, consolidou a implantação do campus
da PUC no bairro da Gávea, abriu a Universidade para a área
da pesquisa científica e organizou a estrutura administrativa
e acadêmica que, em traços gerais, permanece até
o momento.
Sua participação foi decisiva no processo
de promulgação da Lei de Bases e Diretrizes de 1961,
principalmente como defensor da liberdade de ensino.
Foi uma presença constante nos organismos
mais importantes ligados à educação, principalmente
na dimensão católica, mas não apenas nesse
âmbito: atuou como Vice-Presidente da Federação
Internacional das Universidades Católicas, e também
como Vice-Presidente do Conselho Estadual de Educação
do Rio de Janeiro, desde a sua instalação até
1967. Integrou em 1962 a Delegação Oficial Brasileira
à Conferência da UNESCO e OEA em Santiago do Chile,
cujo tema foi "Planejamento da Educação para
o Desenvolvimento Econômico e Social". Dois anos mais
tarde, participou da Delegação Brasileira à
XIII Assembléia Geral da UNESCO em Paris. A partir do que
lá ouviu e discutiu, escreveu o livro "A U.N.E.S.C.O.",
relatando o que acontecera na Assembléia, apresentando as
políticas gerais da UNESCO sobre a educação
e traçando algumas relações entre os objetivos
da UNESCO e a perspectiva cristã, chamando a atenção
para o papel dos católicos na reorganização
do mundo. O livro foi publicado em 1965, pelas edições
da AEC da Guanabara.
Mesmo depois de deixar a Reitoria da PUC, continuou trabalhando
na universidade, como professor, entre 1964 e 1967, nos cursos de
pós-graduação de Pedagogia e Filosofia da Educação.
O Concílio Vaticano II é um marco na
história da Igreja; é também, particularmente,
na vida do Pe. Alonso. A renovação que o Concílio
pede abala estruturas profundas, convicções antigas,
idéias solidificadas com o peso de séculos de história
eclesial. Alguns não vêem com bons olhos as mudanças
anunciadas. Pe. Alonso é um deles: o forte envolvimento com
as questões cruciais de seu próprio tempo talvez não
lhe permitam ainda prever de que modo a anunciada abertura da Igreja
e a sua aproximação às preocupações
sociais se concretizariam. Ele teme que sejam, então, colocados
em risco valores essenciais. Vê a reforma como uma ameaça
à autoridade do Sumo Pontífice e reclama lideranças
na Companhia de Jesus que façam frente ao problema. Os jesuítas,
entretanto, sempre foram propulsores de inovação:
ele não encontra muito eco nos companheiros.
É bastante angustiado que Pe. Alonso decide
ir para a Espanha, onde ficará por um período de quase
quinze anos, tratando também de problemas de saúde.
Primeiro em Fuenfría, perto de Madri, e depois em Roma, Pe.
Alonso lê, reflete, reza e escreve muito, apesar da idade
avançada (já conta 72 anos). Produz extenso material
que posteriormente, reunido com outros escritos, viria a constituir
os cinco volumes de suas "Reflexões Pedagógicas",
que se dividem em: "A crise estudantil", "Crise adulta
da juventude", "Nascimento de um homem novo", "Luz
e sombras no devir do humanismo" e "Salvemos o homem",
todos publicados pelas Edições Loyola a partir de
1981, quando ele já regressara ao Brasil. Além disso,
ao longo da vida, publicou inúmeros outros artigos de menor
porte, a maioria de circulação interna na AEC ou na
Companhia de Jesus, utilizando muitas vezes seu pseudônimo
predileto: "Mariano da Cruz".
Na significativa atuação do Pe. Artur
Alonso no contexto da educação brasileira, um dos
destaques é, sem dúvida, a criação da
AEC. Ela foi concebida em 1944, por ocasião do primeiro Congresso
Nacional de Estabelecimentos Particulares de Ensino, realizado em
grande parte como uma manifestação em favor da escola
particular e contra o monopólio do Estado na educação.
Ao mesmo tempo, os educadores nele reunidos buscavam caminhos para
atender às exigências da Reforma Capanema, de 1942
- na qual Pe. Alonso teve certa influência, embora criticasse
o sistema de exames e provas parciais, que desviavam a atenção
do processo de ensino-aprendizagem. De acordo com a nova lei, todos
os professores deviam possuir a titulação necessária
para lecionar, e as escolas somente podiam funcionar com a devida
autorização do Estado. Até então, qualquer
pessoa podia assumir aulas, desde que tivesse conhecimento para
isso, mesmo sem titulação específica. Quanto
às escolas, quando oficializado o registro no MEC passavam
a ter os diplomas reconhecidos, ao invés dos alunos terem
que se submeter, como ocorria, ao "exame de estado".
A AEC ajudou na legalização dos títulos
dos professores, sobretudo aqueles ligados às escolas católicas,
e orientou os diretores no processo de credenciamento das instituições,
inclusive nas questões jurídicas. Pe. Alonso lhe destinava,
porém, objetivos mais amplos para a Associação,
como o de promover a união entre as escolas católicas
e aproximar os seus professores. Segundo depoimento do fundador,
os mestres viviam, na época, a tal ponto isolados, que não
se conheciam sequer entre os que trabalhavam mesmo bairro. Outra
meta era defender os princípios da religião, da liberdade
e dos direitos da família. Percebe-se presente, neste início
de atuação da AEC, toda a defesa contra as doutrinas
marxistas e contra as idéias protestantes, explicável
em função do próprio jogo de forças
que se travava na época entre católicos e liberais.
O pensamento católico vigente era o de que educando as classes
dominantes, formando as futuras lideranças segundo valores
humanistas e cristãos, as estruturas sociais seriam transformadas.
Pe. Alonso era um dos entusiastas da crença de que os católicos
unidos venceriam os inimigos da Igreja, que haviam ganhado terreno
com a laicização do ensino e a propagação
das idéias liberais.
A estratégia do Pe. Alonso era "estar
presente onde se decidiam as orientações políticas
e administrativas do ensino nacional". Por isso, a AEC se constitui
também num organismo de apoio a educadores que podiam representar
os interesses da escola católica no Senado e na Câmara.
Além disso, Pe. Alonso buscou apoio da imprensa, encontrando
no conde Pereira Carneiro, do Jornal do Brasil, e em Roberto Marinho,
de O Globo, dois colaboradores. "Rara era a semana", conta
ele, "que não publicassem algum artigo elaborado na
AEC. A AEC visava formar opinião".
Além disso, sob a presidência do Pe.
Alonso, a AEC assume uma série de outras lutas, em defesa
da escola privada, pela liberdade de ensino. Pe. Alonso argumentava
que cada família devia ter o direito de escolher a linha
educativa que desejasse para seus filhos. Nesse ponto, a sua atuação
foi decisiva para que, na Lei de Bases e Diretrizes da Educação
Nacional (Lei 4.024 de 1961), essa liberdade fosse garantida. Basta
dizer que o substitutivo apresentado por Carlos Lacerda ao projeto
anterior para a lei, em andamento na Câmara, foi redigido
na AEC. Foram treze anos de campanhas cujos pormenores aparecem
no Relatório "20 anos a serviço da educação",
de 477 páginas, escrito por Pe. Alonso sob o pseudônimo
Mariano da Cruz, após completar sua gestão. Um resumo
desse relatório aparece no livro "Caminhos novos na
educação", organizado por ocasião dos
50 anos da AEC.
O monopólio econômico do Estado também
foi combatido por Pe. Alonso, que considerava que o dinheiro público
(portanto, de todos) devia servir também às iniciativas
particulares, e não apenas às estatais (vale lembrar
que, segundo relatório da AEC, 30% dos alunos das escolas
católicas eram bolsistas). Uma vitória sua nesse embate
foi a Lei do Fundo Nacional do Ensino Médio, resultado em
grande parte de seus esforços e da colaboração
do Dr. Carlos Pasquale, do Departamento Nacional de Educação
do MEC. Além disso, Pe. Alonso defendia o término
do controle do Estado sobre as anuidades escolares, com o fim de
poder elevar o nível salarial dos professores.
O pensamento educacional de Pe. Alonso deve
ser lido à luz do contexto em que ele viveu. A ênfase
com que defendeu os valores de um humanismo radical, opondo-os às
idéias liberais, que considerava perigosas e nocivas à
família; a força com que atacou o movimento estudantil
de 1968, pelo que significava de rebeldia e repúdio à
ordem estabelecida; a desconfiança com que leu as propostas
do Concílio Vaticano II, prevendo que as mudanças
anunciadas na Igreja abalassem a autoridade papal, são reflexos
de uma personalidade extremamente fiel ao pensamento eclesial que
caracteriza a época na qual se formou. Uma leitura com os
olhos de hoje, que talvez possa detectar certo radicalismo e alguma
rejeição ao novo, não pode, entretanto, relativizar
o valor da postura de coerência pessoal de um homem que, em
sua vida, apaixonou-se pela educação e que lutou,
em cada palavra, em cada ação e em cada linha das
centenas de páginas que escreveu, pela defesa de um mundo
no qual acreditava e queria ajudar a construir. |